— prazeres e perturbações que a tendinite me trouxe.
Com a tendinite bombando, ganhei a possibilidade de pedalar indoor, ao invés de correr por aí naquela sensação mágica de que a qualquer momento posso dar uma fugidinha. Não gosto, mas, para deixar um pouco mais prazeroso, resolvi usar aquele tempo para assistir a filmes e seriados. Alguns dias atrás assisti “As Horas” (Stephen Daldry) e, nesta semana acompanhei uma série de notícias sobre feminicídio e violência contra mulher e não pude deixar de pensar que “As Horas” parece tão silencioso e sutil, mas contém gritos contidos de mulheres que sofrem.
Nem toda violência vem acompanhada de tapa ou de ameaça explícita. Muitas vezes ela é sutil, construída lentamente, e começa nas expectativas irreais que se atribuem às mulheres. Violência em forma de performance “feminina”: casas impecáveis, estéreis, refeições perfeitas, disponibilidade infinita. Daquilo que uma “boa mulher” deveria ser, suportar e calar. As três personagens mexeram muito comigo por estarem em tempo histórico diferentes, mas viverem experiências semelhantes: Virginia Woolf enlouquece com a página em branco, mas não é a página que a corrói, é a obrigação em ser genial, mas sem perturbar a ordem e os bons costumes. Clarissa tenta salvar todo mundo – porque aprendeu que o amor feminino é esse serviço interminável. Laura Brown se afoga no papel de dona de casa impecável, até que o gesto mais radical que consegue fazer é trair o roteiro esperado: ela vai embora.
O filme se chama “As Horas” porque são nas horas que a violência cotidiana acontece: na repetição, no silêncio, no “é assim mesmo“, no “você tem tudo para ser feliz”. Nessas horas a dor se acumula, se deposita, e espera… quando a dor não encontra uma saída criativa possível, ela se transforma em ato, em colapso, em fuga, na qual alguns chamarão de tragédia, outros de alívio.
Talvez eu tenha voltado à reflexão de “As Horas” porque falar das manchetes da semana dói demais. Ou talvez porque ver essas três mulheres tentando respirar dentro do impossível me lembre que a violência não começa na agressão, ela começa na expectativa.
E, ainda assim, há algo nas horas que também salva. Porque se a violência se constrói na repetição silenciosa, a resistência também. Ela aparece nos pequenos desvios do roteiro, nas decisões minúsculas que ninguém vê, nos pensamentos que inauguram um “e se?”, nos gestos que reorganizam uma vida por dentro antes de qualquer ato por fora. O feminino — esse campo de batalha tão antigo — não é feito apenas de expectativas impostas, mas também de brechas que insistem em se abrir. Nelas existem as mulheres que escolhem existir apesar de tudo: as que pedem ajuda, as que rompem, as que voltam para si mesmas, as que escrevem, as que conversam com a própria dor até ela virar algo novo.
Talvez seja isso que “As Horas” nos oferece, mesmo sem prometer finais felizes: a ideia de que há sempre um instante, um intervalo, um fragmento de tempo em que podemos escolher uma vida menos sufocada. Não perfeita, não heroica — apenas mais nossa. E, quem sabe, seja nesse intervalo que reside a verdadeira coragem feminina: a de transformar, pouco a pouco, aquilo que antes parecia impossível de respirar em um espaço onde finalmente caiba vida.