É claro que ao escrever sempre somos atravessados pelas nossas próprias perspectivas individuais. A minha inspiração para escrever este artigo vem da minha própria experiência como mãe, das minhas escutas clínicas de pacientes que exercem parentalidade, das minhas conversas intermináveis com amigas próximas que vivem a maternidade e de dois livros que li recentemente e amei: Mal-Estar na Maternidade (Vera Iaconelli) e Mães que Fazem Mal (Silvia Lobo).
Às vezes, ao escrever este artigo, vou usar os termos “mãe” e “pai” para ilustrar as funções materna e paterna. Mas é importante deixar claro: função materna não precisa ser exercida pela mãe convencional, assim como a função paterna não é de ofício exclusivo do pai tradicional. Famílias modernas têm arranjos diversos: monoparentais, homoafetivas, extensas. O que importa, quase sempre quando temos sorte, é que existam aqueles que sustentem essas funções — independentemente de gênero ou do vínculo biológico. Dito isso, vamos lá!
O que é ser uma “boa mãe”?
A Psicologia e as mulheres, cada uma à sua maneira, se encontraram na história para consolidar esse ideal. À ciência, interessava ocupar o lugar de saber sobre o desenvolvimento infantil, sustentando que a saúde mental do adulto se constrói desde os estágios iniciais da vida. À mulher, veio a consagração de um papel exclusivo: o de ser a pedra angular do futuro da sociedade. Através dela e de suas habilidades, acreditava-se que a criança poderia se tornar um adulto “bem sucedido”. Para a Psicologia, um avanço. Para a mãe, inicialmente, o que parecia um lugar prestigiado, tornou-se um fardo.
De lá para cá, fabricamos uma norma social do que é ser uma “boa mãe”. Tudo o que escapa dessa norma vira desvio, patologia, risco ao desenvolvimento infantil. Basta imaginar uma cena corriqueira: se um pai leva o filho ao parquinho, ninguém pergunta se o lanche é orgânico. Mas se a mãe aparece com uma bolacha recheada, pronto — parece que entregou uma granada! A questão não é a problemática da nutrição em si, mas de onde e como vem a cobrança. Ela nunca pesa igual.
Esse ideal da boa mãe — muito paciente, sempre sorridente, magra e eternamente jovem — é uma ficção coletiva que sufoca mais do que inspira. Ele nasce de uma construção histórica. O papel da mulher na história é bastante atrelado às questões reprodutivas, ou seja, ao ser mãe. Ser mulher é quase um sinônimo de ser fértil, de sucesso reprodutivo. A ela cabe estar sempre com uma aparência mais jovem, pois ao envelhecer, ao entrar na menopausa, ela sofre uma decadência do ponto de vista social, pois perdeu seu lugar em consequência do declínio da sua fertilidade.
Desde o século XIX, a maternidade foi sendo narrada então como missão, atravessada por um amor tido como natural e instintivo. A mulher já não “precisaria” ser mãe por obrigação social, mas sim por desejo “inerente”. Não desejar a maternidade passou a ser entendido como uma patologia, uma ofensa à própria natureza feminina.
Mas onde entra o desejo parental de fato? Onde está a possibilidade de escolha? Só é possível desejar quando há espaço para escutar a si mesmo e quando nos falta. E quando a maternidade é ditada como destino, sobra pouquíssimo espaço para elaborar uma um desejo, com suas limitações e potências.
No fundo, a mulher vive um paradoxo: o que ela sabe é desautorizado; o que ela ainda não sabe é esperado que já soubesse. Espera-se que tenha um saber natural e instintivo, mas tudo o que se vende como “saber materno” gira em torno de conceber, gestar, parir e amamentar — funções que, vale lembrar, podem ser realizadas por terceiros sem que isso a impeça de exercer sua função parental plenamente. Pensem nos casos de adoção.
E o nome do pai?
O papel de quem exerce a função paterna quase sempre foi esquecido, reduzido a um figurante. “Um bom pai é quase uma mãe”, costuma-se dizer. Como se a maternidade idealizada fosse a medida de todas as coisas. Só que essa lógica sufoca a todos: a mãe, que se sobrecarrega; o pai, que fica sem lugar; e a criança, que cresce cercada de expectativas irreais. Afinal, quando a régua da perfeição recai sobre quem exerce a função materna, sobra pouco espaço para que a função paterna apareça de verdade.
É daí que surgem aquelas posições caricatas: o “pai-herói por fazer o básico”, ou o “coadjuvante dispensável” – expressões empobrecidas e insuficientes pensando em quem tem um papel importante e estrutural no desenvolvimento psíquico da criança. No fim, todos sofrem um pouco (ou muito) com essa engrenagem que insiste em aprisionar a parentalidade em ideais inalcançáveis.
No fundo, o ideal da “boa mãe” não é um elogio — é uma armadilha. Uma régua impossível que aprisiona quem exerce a função materna em exigências sem fim, ao mesmo tempo em que relega a função paterna a um papel secundário. Ninguém sai ileso: a mãe, que se sente permanentemente em dívida; o pai, que perde espaço ou fica na caricatura; e a criança, que cresce cercada por expectativas sufocantes, pois se não for o que “esperam”, o furo no narcisismo dos pais é enorme, causando um sofrimento significativo.
E é justamente desse ideal que nasce uma contradição: na ânsia de ser a mãe perfeita, muitas vezes acabam, sem perceber, fazendo mal. Não o mal do abandono deliberado ou da violência intencional, mas aquele mal que brota do excesso, do excesso de controle, da sobrecarga, da tentativa de achar que sempre dá para ser mais do que é possível… Da crença de que o filho não pode existir para além das próprias idealizações.
Vou continuar aprofundando no tema e na reflexão de como mães que querem tanto serem perfeitas acabam, sem querer, deixando marcas justamente por acreditarem nesse ideal. Talvez o grande problema não esteja nas falhas em si, mas na crença de que é possível não falhar. Uma ilusão.