Seremos todos substituídos pela IA?
Uma amiga minha muito divertida, não profissional psi, quase sempre quando falamos me diz algo como: “amiga, esse meu emprego aqui dura mais uns 2, 3 anos e depois disso todos nós seremos substituídos pela IA”. E aí fiquei nessa reflexão neste início de ano. Se uma sessão de psicanálise é o encontro entre dois sujeitos imperfeitos, de saberes limitados, a Inteligência Artificial (IA) poderia vir a substituir os psicanalistas com sua agilidade, seu suposto saber inesgotável e seu baixo custo?
A pergunta, creio eu, ainda não tem uma resposta definitiva. Mas ela exige uma boa reflexão. De antemão, quero esclarecer: não sou do tipo que demoniza a IA. Pelo contrário, faço uso e vejo boas perspectivas para a humanidade com o seu advento. Há pesquisas interessantes sobre o uso da IA em processos de atravessamento do luto e até na predição de eventos psicóticos, com resultados surpreendentes.
Ainda assim, acredito que cabe ponderação quando pensamos na sua utilização e, principalmente, no que estamos nos tornando com ela. Há soluções que funcionam como água do mar para matar a sede: molham a boca, dão uma sensação imediata de alívio, mas desidratam o corpo. A sede continua ali, não elaborada, e volta mais intensa depois. Existem experiências de analgesia e existem experiências de transformação — e isso é fundamental diferenciar.
Um ponto importante é que a IA sabe “mentir”. Se você faz uma pergunta e ela não sabe realmente a resposta, ela não admite que não sabe: ela combina dados, arrisca hipóteses e entrega algo que pareça satisfatório. Talvez isso mate momentaneamente a sede. O que está por trás me parece mais um mecanismo de um lado da conversa que tenta corresponder às expectativas do outro, adivinhar o que ele quer ouvir. Humanos também mentem. A questão é: o que nos diferencia, então?
A resposta passa pela empatia.
A empatia não é uma coisa só. Existe a empatia cognitiva: a capacidade de compreender mentalmente o que o outro sente. Você entende, mas não sente junto. Há também a empatia afetiva ou emocional: quando ressonamos com o outro, quando o que você sente provoca algo em mim. E existe a empatia compassiva: quando entendemos, sentimos e, ainda assim, não nos fusionamos. Mantemos o limite entre eu e o outro, conseguimos nos regular.
É justamente aí que aparece algo muito humano. No encontro com o outro, frequentemente entendemos, sentimos e esquecemos os limites. Algo mexe conosco, nos atravessa, nos tira do lugar, “perdemos as estribeiras”. Isso é tão próprio da experiência humana que nenhuma IA é capaz de alcançar.
Uma análise vai muito além de um lugar de acolhimento ou compreensão. Ela é também um espaço de conflito, de fricção, de encontro com aquilo que invade e nos desorganiza. Quando pensamos no encontro entre dois sujeitos em análise, como imaginar uma experiência sempre tranquila, em que o sujeito sai relaxado, leve, quase zen?
Só quem faz análise sabe como é chegar, sustentar o silêncio inicial, começar a falar. É desconfortável. É angustiante. É vivo.
No fundo, o analista não pode ocupar o lugar de quem atende a demanda do paciente. Ele não responde no lugar do sujeito. Ele devolve perguntas, provoca deslocamentos, sustenta a possibilidade de que cada um descubra o que quer de fato. A IA, por outro lado, é programada para entregar respostas. Ela se alimenta de fontes, repetições, padrões, estatísticas. Aprende com grupos, comportamentos médios, tendências previsíveis.
Prefiro não fechar esse artigo com um placar de pontos entre psicanálise versus IA — porque essa nunca foi a questão. Prefiro terminar com outra pergunta: Se a IA opera por estatística, repetição e previsão, onde fica aquilo que é único? Onde fica o singular?
O maior tesouro de uma análise é o discurso de um sujeito sobre si mesmo. E isso não se copia, não se calcula, não se antecipa. Não há banco de dados que dê conta. Cada sujeito é exclusivo no mundo.