Era uma vez uma história deslocada.
Uma curiosidade que sempre me perguntam é: como você sabe se o seu paciente está mentindo ou não? É possível saber?
Será que para a psicanálise é realmente importante saber a veracidade dos fatos? Meio perfil investigativo/policial? Não, a veracidade não importa. O nosso material de trabalho é o discurso e, sendo este produzido pelo sujeito em cima de verdades ou mentiras ainda assim é produção deste sujeito, inventado por ele, portanto, não existe mentira em psicanálise. Quem constrói a narrativa está falando sobre si. Mas o que isso quer dizer?
A gente cresce aprendendo que a mentira é o oposto da verdade. Que existe uma linha clara entre uma coisa e outra e atributos morais: verdade é bom, mentira é ruim.
A questão não é se você mente ou fala a verdade.
A questão é: quem está falando quando você fala?
Porque, veja bem, você pode estar dizendo algo absolutamente “falso”… e ainda assim estar dizendo uma verdade. Oi?
Sim, isso parece contraditório. E é.
Vamos por partes…
Imagine alguém dizendo:
“Não estou com ciúmes.”
A frase pode ser uma mentira consciente. Mas ela não é vazia. Ela carrega uma tensão, um esforço, uma negação — e é justamente aí que algo aparece.
A mentira, nesse sentido, é uma produção que exige trabalho psíquico, organização de palavras, construção de narrativa. E, sem querer, ela deixa escapar algo do sujeito. E é aqui que mora o grande valor para o trabalho analítico. A “verdade” mesmo nunca aparece, pura, direta, transparente. Ela só se apresenta meio dita, distorcida, deslocada, encenada…
Ela aparece:
– num ato falho
– num sintoma
– numa história mal contada
– numa mentira “mal sustentada”
Ou seja:
A verdade aparece também através da mentira. Isso muda tudo!
A pergunta deixa de ser: “isso é verdade ou mentira?”
E passa a ser: “o que, nisso que está sendo dito (mesmo que seja mentira), diz algo sobre este sujeito?”
A mentira, nesse sentido, não esconde apenas, ela também revela. Por isso, o atributo moral não passa pela clínica: “mentiu? vamos corrigir este paciente para que ele fale somente a verdade nada mais que a verdade.” Na verdade, o que fazemos é escutar.
Escutar inclusive — e principalmente — aquilo que não fecha, que escapa, que parece incoerente, por que é ali que algo insiste.
Então… existe mentira? Sim, mas não do jeito que você aprendeu.
Porque mesmo quando você mente, você não deixa de dizer algo de verdadeiro, algo sobre você. A verdade, então, não é totalmente sua, ela te atravessa e até te “desmente”.