Um livro que eu amo e que fiz questão de ter na estante de livros aqui de casa é “A Parte que Falta” do Shel Silverstein. Esse livro é um presente psicanalítico que cabem tantas reflexões. O livro começa com: “faltava-lhe uma parte. E ele não era feliz.” Pronto. Vou parar nessa primeira frase para tentar esboçar o que quero dividir com vocês hoje.
Será mesmo que quando nos falta algo somos infelizes? Se algo nos falta, temos desejo de ter esse “algo”, e isso nos coloca em movimento para buscar, conquistar, criar, (re)inventar. Pense na situação de alguém que não sente falta de nada, alguém tomado por uma sensação de completude extrema, em que tudo é preenchido, não existindo aquela pontada de vazio. Essa pessoa vai se colocar em movimento para quê? A falta é motor, não obstáculo. O desejo só existe porque sentimos falta de algo e, sinto muito em dizer, mas não há pessoa, objeto ou conquista capaz de preencher totalmente esse vazio.
Isso pode parecer triste à primeira vista, mas garanto: ao atravessarmos a tristeza de aceitar que não existe completude possível, encontramos um ânimo novo em seguir adiante. Surge a liberdade de pensar que, assim como não existe alguém capaz de me completar, também é totalmente dispensável a tarefa de tentar ser aquele que completa o outro. E isso, meus amigos, pode ser (muito) libertador.
A reflexão então é: por que precisamos personalizar os outros? Viver tentando fazer com que as pessoas sejam como gostaríamos, ou que ajam da forma como pensamos ser a melhor? Criamos assim a ilusão de que existe, sim, uma possibilidade de completude — e que o outro (ou a vida) ainda não me entregou. Quantos de nós adiamos nossa felicidade colocando condições como: quando eu casar, quando meu companheiro mudar, quando eu for promovido, quando eu tiver um corpo legal… então, finalmente, serei feliz.
Se alguém não corresponde ao que você espera, deixe. Aquele amigo que cancelou o programa de última hora? Deixe. Aquela irmã que não contou uma novidade para você? Deixe. Seu chefe que não reconhece o esforço adicional no trabalho? Deixe. Apenas deixe.
Deixar o outro ser quem é, sem personalizar, sem tentar mudar ou transformar, é a única possibilidade de um encontro genuíno. Quando conseguimos estar com o outro — aceitando que ele é diferente, que não atende às nossas expectativas — e ainda assim nos sentirmos bem, aqui existe a possibilidade de um encontro verdadeiro, sem máscaras, disfarces, nem ilusões de completude.
Se abrirmos mão de tentar moldar o outro, sobra energia para olharmos para nós mesmos: repensar nossas escolhas, nossas atitudes, nossa relação com o que nos falta — que, no fim das contas, é o único terreno onde temos algum tipo de controle. Aceitar a falta de controle sobre o outro é, paradoxalmente, experimentar liberdade.
Talvez então essa seja a saída possível: descobrir que ter uma parte faltando não é maldição, mas condição humana. Existe algo que falta em todos nós. E deixar os outros existirem com as próprias faltas, enquanto seguimos carregando as nossas, é o que nos permite avançar.
Um abraço,