Metas, canelite e outras dores de fim de ano

Com as festas de fim de ano se aproximando, é comum observar o movimento das pessoas refletindo sobre o ano que passou e já planejando metas para o próximo.

Tem gente que inclusive já abandonou alguns planos de 2025, decidida a dar “foco total” em 2026 — como se o encerramento de um ano fosse também o encerramento de uma velha versão de si, para a chegada de uma nova: aquela que tudo alcança, tudo pode, sem limites.

Eu costumo brincar que o inconsciente não tira férias, não muda de ano e que a gente dialoga com ele o tempo inteiro.

A ideia de marcar uma data para simbolizar o fim de um ciclo e o início de outro pode ser reconfortante — um ritual de passagem simbólico que faz parte da nossa cultura e que, de fato, abre campo para novas possibilidades.

Mas a minha reflexão não é exatamente sobre o 31 de dezembro ou o 1º de janeiro, e sim sobre aquela lista imensa de afazeres e realizações que talvez pudesse ser repensada com a leveza de ser humano, demasiadamente humano, e não demasiadamente idealizado.

Para Lacan, somos todos comprometidos — em alguma medida, em alguma esfera da vida. Temos limites. O sofrimento é parte da condição humana, e não uma doença a ser eliminada. Por isso, um psicanalista não fala em “cura”. Se o sofrimento é inerente à experiência humana, como poderíamos eliminá-lo? O olhar é outro: o da transformação.

Trata-se de o sujeito tornar-se capaz de lidar com aquilo que o faz sofrer de outro modo — mais criativo, mais autônomo, mais consciente. Não há promessa de uma vida sem dor ou de um “não sofrer nunca mais”. Se estamos implicados com a própria existência, inevitavelmente sentiremos.

Eliminar os problemas pode parecer uma boa estratégia para evitar o sofrimento — mas como os problemas brotam por conta própria, talvez seja melhor trabalharmos as possibilidades de enfrentá-los, em vez de tentar contê-los. Lembrei de um exemplo que falei com uma amiga ainda neste final de semana. Ela quer comprar um cachorrinho, mas tem muito medo de se apegar demais, sofrer quando ele adoecer ou vier a morrer. Oscila, então, entre o desejo de ter e o medo de se aproximar da concretização. O caminho, no entanto, leva ao mesmo lugar: ela já sofre pela vontade de tê-lo. Ora, optar por não tê-lo, na tentativa de evitar sofrimento, não parece ter um final mais feliz. E sim, meus amigos — viver é esse tal de rasgar-se e remendar-se o tempo inteiro.

Gostaria, então, de propor resoluções menos idealizadas — e com um pouco mais de ternura por nós mesmos. Uma vida sem metas, sem sonhos, sem planos, também não se sustenta. Deprime. Precisamos alimentar nossos desejos para seguir em movimento. Mas e se fôssemos mais gentis conosco? Como seria?

Eu estava inscrita — e super animada — para a minha segunda meia maratona deste ano, em dezembro. Mas aí veio uma dor e, depois, o diagnóstico: canelite, ou tendinopatia medial posterior.

(Que nome horroroso. A dor, então, nem se fala!)

Já se foram seis semanas de fisioterapia e ajustes de demanda para poder seguir adiante, mas a meia maratona ficará para depois. Ano que vem? Não sei. Vamos ver quando o corpo — que não quer saber das minhas metas, nem tampouco dos meus sonhos — desinflamar e me permitir correr novamente sem dor.

Por enquanto, o que ele me pede é pausa, escuta, paciência e aceitação.

Há coisas que não se curam. Mas se cuidam.

Cuidem-se.

Um abraço,

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