A invenção da “mais que perfeita” mãe foi o tema do meu último artigo por aqui. Decidi aprofundar mais um pouquinho sobre esse assunto. Como é a experiência de estar vivo para você? É divertido, tranquilo, sem sofrimentos, sem imprevistos, sem desencontros, estável e cheio de conquistas? Eu costumo brincar que se a vida não é um morango, às vezes parece mais com um limão espremido no olho.
Quando pensamos na lógica da parentalidade perfeita – aquela da mãe mais do que boa – imediatamente nos remetemos a uma tentativa de criação de filhos sem marcas, desentendimentos, alienações. Mas será que isso é possível? E se fosse, quais seriam as consequências disso?
Se uma mãe nunca falha, nunca frustra, nunca comete equívocos, os filhos não aprenderiam que o mundo é constituído por limites, desencontros e da possibilidade de reparação. Um mundo sem falhas, não é um mundo, é como ficar “em si mesmado”, preso a uma lógica de que não existe o outro, não existe a diferença, não existe a falta, nem tampouco a reparação. Sem a frustração, não há falta e sem a falta, não há desejo. Como posso desejar se tenho tudo, se nada me falta? E sem a possibilidade de reparação, não há relação possível, pois sempre haverá desencontro, frustração, afinal o vínculo é sempre com um outro que é diferente de mim. A mãe poder falhar significa trazer ao filho uma condição de realidade.
A lógica de mercado sobre a parentalidade nos dias de hoje está muito ancorada num ideal: existe uma norma do parto, uma norma de amamentação, uma norma de enxoval, de sono, da introdução alimentar, da escola bilingue… a norma sequestra a possibilidade de falha inevitável e a transforma em mercadoria: a cada falha (que é parte da vida), surge uma promessa de correção: cursos, produtos, fórmulas etc. A mãe que falha não é vista como humana, mas como culpada e passível de conserto e, assim, vamos enraizando o conceito de que a falha não é constitutiva, mas sim, sinônimo de incompetência. E quem quer ser incompetente quando se trata sobre o futuro dos próprios filhos?
A mãe perfeita, afinal, condenaria os filhos a uma ilusão cruel: existe um mundo aí fora que nunca vai decepcioná-lo (!). Quando o cuidado vira hiper vigilância, cheio de excessos, a mãe acaba por engolir a espontaneidade e o espaço criativo da criança. Um amor que desconhece limites, espaços e não tolera a separação acaba por aprisionar e sufocar, como se, para o filho existir, tudo que tem dentro dele precisasse desaparecer e ser preenchido com os ideais dela. A mãe que recebe o filho sempre chega antes dele, carregando suas próprias marcas, atravessada também por um tempo histórico e cultural inevitáveis. Tudo isso constitui a fantasia de ideal da mãe diante dos filhos.
Mas então, que destino é possível diante disso, uma vez que todos somos atravessados por esses ideais e as marcas individuais? Penso que o maior presente que podemos nos oferecer é o questionamento sobre os nossos próprios ideais de parentalidade. Somente nos questionando podemos repensar o ideal da perfeição e dar espaço para a nossa própria humanização na criação dos filhos. Não estou pensando em uma abdicação dos cuidados, mas de um maior carinho consigo mesmo ao poder olhar e aceitar as falhas e os limites como parte da experiência de ser pai e mãe. Quando é possível essa aceitação, oferecemos aos filhos um espaço seguro para tornarem sujeitos para além da nossa re-produçao (como produto de si mesmo, cópia, extensão) e para experimentarem frustrações, desejos, erros e reparos. Tal como a vida nos clama!
O que constitui uma parentalidade viva e humana é justamente a alternância entre acertos e tropeços, encontros e desencontros. É no reparo — e não na perfeição — que a criança aprende que os laços podem se afrouxar, mas também serem costurados, refeitos e fortalecidos.
Um abraço,