Um mal-estar daqueles…

Esses dias assisti um reels no Instagram que me fez sentir um mal-estar. O conteúdo era disfarçado de uma bondade absoluta e a pessoa que clamava palavras de intolerância e ódio, se colocava em um lugar de “suposto saber” de todas as leis que regem o mundo na lógica do que é certo vs errado, pecado vs salvação etc. Lembrei da primeira vez que li o Mal-estar na Civilização de Freud (1930). Eu realmente senti um mal-estar. (In)felizmente penso que é um texto atual, parece que foi feito ontem, algo que ele poderia ter postado no feed entre uma notícia de guerra ou em um tweet inflamado de algum líder de Estado ou como um comentário para o tal reels.

Somos seres pulsionais, isso significa que nascêssemos, todos, com um tanto de pulsão, de energia (não uma energia cósmica, espiritual, mas energia de vida e também de morte, mais destrutiva). Mas não ficamos somente com a nossa pulsão escancarada vida afora. A cultura, na qual somos inseridos, é fonte da possibilidade de nos tornarmos e sermos reconhecidos como humanos, mas também pode ser de adoecimento, pois requer ajuste e recalcamento de parte dessas pulsões. No melhor dos cenários somos indivíduos castrados.

Viver em sociedade então tem seu preço: temos que abrir mão de satisfazer todos os nossos desejos, as nossas pulsões, para não viver em estado de guerra permanente. Só que essa renúncia deixa marcas. A frustração que sentimos ao engolir nossa raiva, ao segurar nossos impulsos, ao aceitar regras que nem sempre fazem sentido… tudo isso se acumula. A gente engole. E, de vez em quando, para alguns mais, outros menos, transborda. Como poderíamos evitar o transbordamento? Essa é a questão.

O mal-estar não é só externo, é interno também. Somos seres divididos, cindidos, contraditórios, conflituosos e dentro de nós convivem não harmoniosamente desejos conscientes e inconscientes. Boa parte do que sentimos e “abafamos” é recalcado – nem nos damos conta! Mas ainda assim existe e produz sofrimento. Aceitar essas tensões, essas contradições, sem tentar eliminá-las à força, pode aliviar o peso que carregamos. Artes, estudos, ciência, criação, esportes são formas de sobrevivência e descarga mais saudáveis, onde canalizamos nossas pulsões mais agressivas e entregamos algo em benefício próprio e social. Pense em um cirurgião. Exige uma baita pulsão agressiva para conseguir exercer o seu trabalho: cortar, abrir, costurar, trocar etc. Mas foi canalizada, está a “serviço de algo”.

Para nos tornarmos humanos, precisamos do reconhecimento do outro. Essa necessidade de pertencimento é parte da nossa psique- todos temos. Assim, aprendemos a nos organizar e viver em tribos, grupos, que se estruturam não somente pelo amor, mas também pelo ódio ao inimigo em comum. O que fazemos com a nossa pulsão mais agressiva quando estamos empobrecidos e mergulhados em nossas neuroses? Poderíamos nos agrupar muito mais pelo afeto do que pela escolha de quem odiar juntos, mas penso que um inimigo em comum fornece adrenalina, alimenta e necessidade de proteção. Quem afinal não quer uma emoção e se sentir mais protegido?

Com o advento da tecnologia, esse mal-estar transformou-se em espetáculo. Em tempos de redes sociais, algoritmos e notícias fragmentadas e falsas, nos tornamos reféns de narrativas simples: “este é o herói que vai nos salvar”, e/ou “este é o inimigo a ser combatido”. Tanto a figura de salvador 100% boa quanto a figura de inimigo 100% má trazem identidade de grupo e de pertencimento. E a lógica digital não é neutra: ela premia quem grita mais alto, quem polariza com mais clareza. Quanto mais ódio e certeza absoluta, mais cliques. Já a nuance, a dúvida e a reflexão quase nunca viralizam. (!)

Eu pensava que, como consequência da pandemia do coronavírus, iríamos ter uma transformação de como esse senso de pertencimento se organizaria. Uma visão bem romântica de “todos juntos, unidos em um mundo plural e diverso, onde, independente da crença religiosa e aspectos culturais, habitamos o mesmo espaço e tempo histórico”. (Risos!)

Ganhei de presente no Natal de 2020 um livro do Joel Birman “O Trauma na Pandemia do Coronavírus” e, então, consegui pensar como essa crise mundial funcionou como catalisador desse processo de mal-estar. O vírus foi um trauma coletivo: invisível, incontrolável, escancarou a nossa finitude e nossa vulnerabilidade. O isolamento forçou um individualismo radical, ao mesmo tempo em que despertou uma vontade imensa de laço e comunidade – afinal, somos seres sociais. Porém, foi no enfrentamento da crise, diante do medo e fragilidade humana que essa situação foi rapidamente capturada por discursos políticos, religiosos, teorias conspiratórias e polarizações, acelerando a lógica do herói e do inimigo.

O mal-estar está dado: estrutural, inevitável, e agora hiperconectado. A questão é o que fazemos com ele? Vamos continuar nos entregando ao espetáculo autoritário e polarizado? Ou pior, criando discursos que propagam o ódio na internet disfarçado de um conhecimento absoluto sobre a realidade e as leis do bem e do mau? Ou vamos buscar alternativas mais cuidadosas, mais criativas, mais humanas para habitar a civilização? No fim, tudo é sobre a capacidade de amar, pois o amor é um exercício que exige lidar e conviver com ambivalências, é quando enfim amamos o outro em sua diferença e não o nosso próprio espelho.

Um abraço quentinho em tempos tão difíceis,

Carol.

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